Niilismo #1 - Virou Pauta

Niilismo #1

    Se dói? Sim, excruciantemente até. Se a angústia é perene e ininterrupta? Não. Os raios de Sol encontram seu caminho para o fundo do poço de paralelepípedos, rastejando como cobras insidiosas e me envolvendo em um temporário laço de comiseração e pena, como um pai abusivo que abraça seu filho antes de lhe sugar a vida.

    As vezes a dor é tão esmagadora que você sente que o fino frágil laço ao redor de seu pescoço, é o último fio te prevenindo da inevitável queda para dentro do sombrio reino de angústia. Da implacável e irrevogável dor. Afinal, nós somos as gerações dos transtornos, as crianças dos traumas e memórias suprimidas.

    E quando o corvo voa com a suas asas de sangue pelo céu do crepúsculo, eu não consigo evitar de me antecipar e preparar para a dor que o segue, para os incapacitantes pensamentos que habitam minha vil cela. Eu assisto o mundo desfalecer em desesperança, e anseio por perecer com ele, desejando por um perdão que creio que nunca hei de merecer.

     A depressão é um demônio árduo e sedutor, como a sua quedinha na escola. É intoxicante e atraente, e como uma mariposa às labaredas, eu me encontro mergulhando nas flamas de meus próprios erros e pecados, ansiando pelo descolar de minha pele do corpo como punição por erros que eu não consigo aceitar.

     É estar exausto e nunca dormir, é se esforçar para melhorar e assistir as casas de promessas de vidro se estilhaçarem, é um incessante sentimento de desesperança laceado com sonhos  estraçalhados. É se odiar por ter medo de falhar, e optar por desistir pois a ideia de outro fracasso é petrificante. Eu mesmo sinto que tudo que escrevi são meras palavras vazias e prescindíveis às mentes afligidas.

     Todavia hão os dias de luz, os dias em que as correntes não queimam e o ar da primavera consume e floresce em seus pulmões. Como se escrito por um poeta arcadista, há dias em que tudo está ótimo e portamos nossos sorrisos um tanto quanto genuínos ao sairmos de casa, inspirando a poesia da vida. A faceta pura de Jano nos toma por um momento, e assim os outros nos julgam por dramáticos, com suas frases de “viu? Era só uma fase”, sem saber que eventualmente a sinistra outra face se mostrará, mas vocês continuarão só focando no sorriso que já foi.

      Depressão afinal é um constante inconstante sentimento de auto depreciação e desesperança, que precisa ser exposto, que precisa ser debatido e gradualmente alcançar o estado de nós podermos conversar sobre nossos problemas e dores, livres dos estigmas perpetuados por pessoas supérfluas, que nunca nem puseram os olhos embaixo d’água, no entanto opinam sobre como fugir do oceano.

     Eu sonho que um dia esse mundo vai se amar, perdidos nas cores de taciturnos arco-íris. Eu desejo tanto que todos que se sintam assim possam encontrar refúgio, ajuda e conforto.

2 comentários em “Niilismo #1

  • 16 de janeiro de 2019 em 23:49
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    “As vezes a dor é tão esmagadora que você sente que o fino frágil laço ao redor de seu pescoço, é o último fio te prevenindo da inevitável queda para dentro do sombrio reino de angústia.“
    Nossa é bem isso, até objetos que eu via me faziam perder o equilíbrio e tive que me desfazer.
    E às vezes eu crio manias para ocupar a mente e deixar o meu coração sem sentir nada.
    Foi quando eu voltei a escrever, ajuda bastante, e também procuro ajudar ao próximo (que me faz ver que meus problemas não são o fim).
    Mais um texto maravilhoso👏🏻

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    • 12 de fevereiro de 2019 em 22:30
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      Muito obrigado e que bom que gostou!
      Sinto muito que você se relacione com essa dor, que só cada um sofre e conhece a sua.
      Fique bem e se cuide, e continue escrevendo. Amar e ajudar alguém são as melhores coisas que podemos fazer.

      Resposta

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